sábado, julho 29, 2006

34) Sobre as pesquisas eleitorais...

ELEIÇÕES 2006
Pesquisa do Ibope colhe amostra desfavorável a Lula

Diferente de levantamentos anteriores, a pesquisa divulgada esta semana pela TV Globo reduziu o peso do eleitorado menos escolarizado e de menor renda e aumentou o de nível médio e renda maior. A diretora do Ibope, Márcia Cavallari, garante que a distorção não influiu no resultado, mas...

Nelson Breve – Carta Maior, 29 Julho 2006

BRASÍLIA - Logo após a divulgação da mais recente pesquisa do Ibope sobre as intenções de voto para presidente, feita na terça-feira (25) pelo Jornal Nacional da TV Globo, pensei que não iria escrever nada a respeito. O cenário era o mesmo apontado pelos outros institutos de pesquisa na semana anterior. Portanto, não havia novidade que justificasse um texto jornalístico, a não ser para quem considera as pesquisas eleitorais o evento mais importante de uma eleição.

Comentando o assunto com um colega, no mesmo dia, fui surpreendido com a seguinte avaliação e definição do valor das pesquisas eleitorais: “Para mim, essas pesquisas são todas manipuladas. Pesquisa de opinião é um ramo de negócio que vende dois tipos de produto aos candidatos no período eleitoral: um é o que pensa o eleitorado, para que as campanhas orientem suas estratégias e decisões; o outro, é alterar o pensamento do eleitorado para favorecer o cliente, para que ele tenha melhores condições de arregimentar apoios e conseguir financiadores. Não acredito que os institutos deixem de vender esse produto que tem muito valor neste momento da campanha”.

Discordei logo da avaliação dele. Acompanho pesquisas com interesse profissional há muito tempo. Nesse período, os institutos tiveram de se adaptar a exigências legais, especialmente em períodos eleitorais. É difícil manipular dados porque o questionário tem de ser registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com antecedência mínima de cinco dias da divulgação. Foi por causa dessa obrigatoriedade que, no início do ano, a imprensa descobriu que uma pesquisa do Ibope divulgada pela revista IstoÉ da Editora Três tinha vestígio de ser uma encomenda do ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho, pois haviam várias perguntas específicas sobre ele.

Com a exigência de explicar a metodologia e apresentar a base do eleitorado da qual foi extraída a opinião, os institutos ficam expostos à fiscalização da imprensa, dos especialistas em estatística e dos concorrentes. O que acaba inibindo a manipulação de dados, seja na ponderação dos resultados ou na definição das cotas da amostra. Meus argumentos não convenceram o colega, que é da velha guarda do jornalismo e está perto de se aposentar como professor de uma respeitada faculdade de comunicação. Nosso encontro se encerrou com um conselho dele: “Não perca o espírito crítico”.

No dia seguinte resolvi dar uma olhada, como sempre faço, nos quadros com os cruzamentos de dados da pesquisa, comparando com os do levantamento anterior do mesmo instituto, para observar tendências em faixas etárias, regiões, faixas de escolaridade e renda. Às vezes, captamos sinais que ajudam a entender melhor o cenário eleitoral. Levei um susto ao comparar o perfil dos entrevistados. Na pesquisa divulgada esta semana, o Ibope ouviu 31% de eleitores com escolaridade até a 4ª série do ensino fundamental e 34% de eleitores com ensino médio. Na pesquisa anterior, encomendada pela mesma TV Globo e divulgada no início de junho, a amostra estava invertida: 35% até a 4ª série e 31% no ensino médio.

No mesmo instante, me lembrei das observações do professor. Todos que acompanham as pesquisas eleitorais sabem que a intenção de voto no presidente Lula é predominante no eleitorado de baixa escolaridade, e diminui consideravelmente a partir dos eleitores de nível médio, que alguns comentaristas gostam de qualificar como eleitorado mais informado. O contrário ocorre com o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin. Será que o Ibope manipulou a amostra para favorecer o ex-governador tucano, que está precisando mostrar potencial de vitória neste momento delicado da campanha, quando se consolidam os palanques regionais? Não posso acreditar. Mas não consigo evitar a lembrança de que a campanha de Lula contratou os serviços do Instituto Vox Populi, enquanto a da coligação PSDB/PFL anunciou que repartiria suas demandas entre vários prestadores desse serviço.

Fui conferir outros dados da amostra. Chamaram minha atenção as cotas por faixa de renda e raça. Curioso: o total de eleitores que possui renda familiar acima de cinco salários mínimos cresce de 13% para 17% da pesquisa anterior para esta, enquanto a soma do eleitorado com renda de até dois salários mínimos diminui de 50% para 46%. Houve variação, também, na amostra por raça: aumentou de 37% para 39% a quantidade de entrevistados da raça branca e de 12% para 14% da raça negra, enquanto diminuiu de 48% para 42% os pardos ou morenos. A coincidência, nos dois casos é que na pesquisa mais recente aumenta a base de eleitores propensos a voltar em Alckmin e diminui a dos que estão inclinados a votar em Lula.

Há uma suspeita no ar. Mas, será que houve alteração significativa nos índices divulgados? Vejamos: foram ouvidos 622 eleitores que estudaram até a 4ª série, 470 da 5ª à 8ª, 683 do ensino médio e 227 com nível superior de ensino; na amostra anterior foram 703 até a 4ª, 466 da 5ª à 8ª, 612 do médio e 221 do superior. Dá para perceber que a discrepância está entre as bases do primeiro ciclo escolar e do médio. A pesquisa mais recente ouviu 81 eleitores a menos que a anterior na cota de baixa escolaridade e 71 a mais na no nível médio. Entre os eleitores que cursaram até a 4ª série, 54% disseram que pretendem votar no presidente Lula se a eleição fosse hoje e 19% registraram a preferência por Alckmin. No nível médio, a intenção de votar em Lula cai para 42% e a indicação do tucano sobe para 29%.

Descontadas as intenções de votos em outros candidatos, os indecisos e os que não pretendem votar em ninguém, apura-se um saldo de 19 eleitores de um universo de 2.002 que poderiam estar com Lula e não com Alckmin se a amostra fosse idêntica à apurada na pesquisa anterior. É o equivalente a um ponto porcentual. O resultado obtido pelo Ibope na pesquisa estimulada foi de 26,8% para Alckmin e 44,7% para Lula. No caso do tucano, o resultado divulgado foi arredondado para cima (27%) e o do petista foi para baixo (44%). Esses arredondamentos do Ibope são uma incógnita. Neste caso, Alckmin foi favorecido. Mas veremos mais adiante que o índice do segundo turno do ex-governador tucano foi arredondado para baixo quando a fração estava em 88 centésimos – isso evitou que o Jornal Nacional anunciasse um resultado no qual Alckmin saltaria para o patamar de 40%, ficando a apenas oito pontos porcentuais de distância de Lula.

Se a amostra da pesquisa fosse equivalente à do levantamento anterior no quesito escolaridade, Alckmin ficaria com 26,4% e Lula com 45,2%. Com os arredondamentos para baixo, teríamos 26% a 45%. Uma diferença de 19 pontos e não 17. Bom, mas está dentro da margem de erro de dois pontos porcentuais para cima ou para baixo. Só que o efeito psicológico provocado pela pesquisa é aquele valor de uso que o professor apontou lá atrás. Diferente do que havia feito em algumas pesquisas, o Jornal Nacional não mostrou no gráfico o intervalo da margem de erro. O que fazer, então? Verificar se existem distorções maiores no perfil do eleitorado por faixa de renda.

Na pesquisa anterior foram entrevistados 422 eleitores com renda familiar de até um salário mínimo, 587 de um a dois salários, 625 de dois a cinco, 196 de cinco a dez e 67 com renda acima de dez salários mínimos, totalizando 1.897 (os que faltam para 2.002 não informaram a renda). Com a diferença de base da amostra, a pesquisa desta semana entrevistou 364 de até um salário (menos 58), 551 de um a dois (menos 36), 624 de dois a cinco (um a menos), 260 de cinco a dez (64 a mais) e 84 acima de dez (17 a mais), totalizando 1.883. Está claro que essa amostra favorece Alckmin. Na faixa acima de dez salário mínimo, ele tem 52% da preferência, enquanto Lula tem 19%. Na de cinco a dez, os dois estão empatados em 36%. Na de dois a cinco, o tucano tem 32% e o petista 38%. Na de um a dois salários, a vantagem de Lula é grande, 52% a 21%. E na até um salário é ainda maior, 56% a 16%.

Se a amostra colhida pelo Ibope fosse igual a da pesquisa anterior, Alckmin teria 26,2% e não 27,2% e Lula teria 45,4% e não 44,5%. Um ponto porcentual foi transferido do presidente para o candidato tucano. Se fosse a simulação de uma eleição, seria o mesmo que trocar o voto de um milhão e 250 mil cédulas marcadas Lula para a mesma quantidade de cédulas com o nome de Alckmin. Pesquisa não é eleição, lembram os pesquisadores. Além disso, não dá para comparar uma pesquisa com a outra no voto estimulado, avisa o Jornal Nacional, observando que a lista de candidatos era diferente.

No entanto, no caso da simulação de segundo turno, fizeram a comparação. E a distorção é semelhante. Lula subiria de 48,4% para 49,4% com a utilização de amostra igual à da pesquisa anterior. E Alckmin cairia de 39,9% para 38,8%. Este é o caso em que o índice divulgado foi estranhamente arredondado para baixo (39% ao invés de 40%). Mesmo assim, a diferença ficou em nove pontos, quando poderia ter ficado em dez, caso fosse reproduzida a amostra anterior. Ainda assim, estaria dentro da margem de erro.

Bom, mas por que ocorre essa diferença nas amostras? O Ibope informa nos dados técnicos da pesquisa que toma por base o Censo de 2000, a Pesquisa Nacional por amostra Domiciliar (PNAD) de 2004 e os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de 2004. Pela PNAD de 2004, o eleitorado brasileiro seria composto por 37,1% de eleitores que estudaram até a 4ª série, 25,3% de eleitores que pararam de estudar entre a 5ª e a 8ª ou ainda não conseguiram completar o ensino fundamental, 27% que pararam ou estão no ensino médio e 10,6% que cursam ou já terminaram o ensino superior. A amostra da pesquisa anterior do Ibope tem alguma semelhança com essa tabela (35%, 23%, 31% e 11%), mas a da pesquisa desta semana distorce a faixa do primeiro ciclo de escolaridade e a do ensino médio. Em prejuízo de Lula.

O consultor político Rubens Figueiredo, diretor-geral do Cepac-Pesquisa e Comunicação, estranha a diferença de três a quatro pontos porcentuais na amostra, mas acredita que o Ibope tenha uma boa explicação para o fato. “Quando você faz pesquisas em momentos diferentes, com amostras diferentes, perde a comparatividade”, adverte. Isso significa que essa pesquisa do Ibope ajuda muito pouco em termos de comparação de cenários. Mas o instituto não está sozinho na distorção da amostra da PNAD. O DataFolha apresenta oscilações expressivas nas cotas da amostra de uma pesquisa para a outra. Além disso, a fatia dos eleitores menos escolarizados, que concluíram até o ensino fundamental, está na faixa dos 50%, enquanto a PNAD e os demais institutos trabalham na faixa dos 60% - com exceção dessa última pesquisa do Ibope, que baixou para 55%.

A diretora do Ibope Opinião, Márcia Cavallari, sustenta que a variação na amostra é normal. Ela explica que as únicas variáveis controladas à priori são sexo, idade e ramo de atividade (que não é discriminado no relatório), além do eleitorado de nível superior, apenas. Essa exclusividade do nível superior na escolha prévia da quantidade de eleitores entrevistados deve-se, segundo a diretora, ao grande índice de recusas desse segmento em responder aos questionários. Se fosse uma busca aleatória, a amostra ficaria comprometida, com menos entrevistados desse perfil do que seria aceitável. Os demais níveis de escolaridade ela não considera importantes, até porque estaria havendo uma evolução rápida no aumento da escolaridade dos brasileiros, além dos analfabetos não serem obrigado a votar. “Está mais certo deixar isso liberado”, considera Márcia Cavallari, garantindo que a confiabilidade da amostra está amarrada com outras variáveis.

É uma justificativa razoável. Afinal, cada instituto escolhe a metodologia mais adequada para alcançar o resultado que considera mais confiável. No entanto, nas dez pesquisas eleitorais nacionais anteriores, realizadas pelo Ibope neste ano e no ano passado, não houve distorção tão significativa nas cotas por nível de escolaridade. Inclusive nas duas sobre o referendo da proibição da venda de armas. Existem pequenos desvios, que normalmente ocorrem nos levantamentos de campo, mas todas obedecem um certo padrão: os eleitores enquadrados nos dois ciclos do ensino fundamental somam cerca de 60% e os do ensino médio e superior, cerca de 40%. Diferente do que sustenta a diretora do Ibope, há algumas distorções no segmento de nível superior, que algumas vezes cai de 11% para 8%. Mas esse desvio não se transfere para o eleitorado menos escolarizado e sim para o nível médio, que está mais próximo no espectro.

O intrigante é que o conjunto dos eleitores mais escolarizados sobe para 45% na pesquisa mais recente do Ibope. Essa variação não costuma ocorrer em levantamentos dos institutos Vox Populi e o Sensus, que seguem a PNAD de 2002 com mais rigor. Nas pesquisas recentes, o Vox estabeleceu cotas de 36% para os eleitores até a 4ª série, 25% da 5ª à 8ª, 28% para o nível médio e 11% para o superior. O Sensus trabalhou com 36,4%, 24,8%, 28,8% e 10,1%, respectivamente. No entanto, quando se comparam os extratos por nível de renda, ninguém se entende. Cada instituto tem uma base diferente, que estica e encolhe o eleitorado mais rico (com renda familiar acima de cinco salários mínimos) no intervalo entre 13% e 25%. O surpreendente é que eles consigam resultados semelhantes, que acabam se afunilando no processo eleitoral – talvez pela própria influência das pesquisas na decisão do eleitorado, como uma espécie de profecia que se auto-realiza.

Não há elementos concretos para sustentar a existência de manipulação de pesquisas para favorecer candidaturas. Especialmente em relação aos institutos mais conhecidos nacionalmente. No entanto, podemos constatar que as pesquisas não têm a confiabilidade que a própria imprensa procura dar a elas. Nem é possível dizer que pesquisa é uma fotografia do momento. Como existem distorções mais do que razoáveis nas bases de levantamento de alguns institutos, podemos concluir que são imagens tremidas, como se fossem registradas fora de foco.

Neste momento, a vantagem de Lula para os demais candidatos pode ser de dois pontos para mais ou menos, mas pode ser de três ou quatro se a amostra estiver distorcida. Alcckmin pode estar mais perto dos 30% ou dos 25% e a candidata do PSol, Heloisa Helena, pode ter 4% ou 12%. Ninguém pode afirmar com certeza. E cada candidato fica à vontade para interpretar os resultados como quiser. Por isso, só dá para confiar nas projeções quando várias pesquisas feitas em um intervalo curto de tempo apontam para um mesmo cenário. Mesmo assim, é bom ficar de olho e desconfiar sempre dos resultados. Afinal, não podemos perder o espírito crítico. Como diz a sabedoria popular: “eleição e mineração, só depois da apuração”.

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