sábado, agosto 12, 2006

48) A politica segundo HH: coerencias e incoerencias...

A política segundo HH
Do colunista André Petry
VEJA, 16 de agosto de 2004:


O que deu em Heloísa Helena? Por que, numa conversa de dez minutos no JN, a senadora esquece a luta de toda a sua vida? Com isso, ela cria uma nova modalidade de política: é a brincadeira de roda

Em sua entrevista ao Jornal Nacional, Heloísa Helena fez a mais bela declaração de amor à demagogia. Aconteceu o seguinte. A apresentadora Fátima Bernardes quis saber se a candidata, uma vez eleita, cumpriria o programa de seu partido, o PSOL, que defende a expropriação de terras para a reforma agrária, sejam elas produtivas ou não. Heloísa Helena, em vez de defender o programa de seu partido ou repudiá-lo, saiu-se com uma resposta espantosa. "Eu não posso, meu amor, porque a Constituição proíbe", começou ela, negando que fosse tomar terras produtivas. Em seguida, emendou o mais estupendo dos complementos: "Programa de partido trata de objetivos estratégicos do partido. Não tem nada a ver com programa de governo". Parece incrível, mas é isso mesmo: Heloísa Helena acha que o partido pode dizer qualquer coisa, prometer e pretender o que quiser, mas na hora em que chega ao governo, bem, aí a coisa muda.

Logo Heloísa Helena, logo ela...

Recordemos a heróica batalha da senadora para permanecer no PT, do qual acabou sendo expulsa em dezembro de 2003. Naquele tempo, Heloísa Helena lutava com todas as suas forças em nome da coerência entre o que diz o partido e o que se faz no governo. Queria que o governo do PT fosse uma expressão do programa do PT. Por exemplo:

• Em maio de 2003, num evento em que se debateu a reforma da Previdência Social, Heloísa Helena virou uma gigante da honestidade de princípios. Disse assim: "É inaceitável a fraude no debate político. O PT faz no governo o contrário do que sempre defendeu na oposição".

• Em dezembro de 2003, ao apresentar sua defesa no processo de expulsão do PT, Heloísa Helena deu uma lição de retidão ideológica aos companheiros. Escreveu assim: "Dediquei toda a minha vida à construção do PT, que agora mudou de lado ao chegar ao governo".

O que deu em Heloísa Helena? Por que, numa conversa de dez minutos na bancada do Jornal Nacional, a senadora esquece a luta de toda a sua vida? Não era isso que ela antes enfaticamente classificava como "fraude no debate político"?

Logo Heloísa Helena, logo ela...

A senadora, ao renovar bruscamente sua visão sobre partido e governo, cria uma nova modalidade de atuação política durante períodos eleitorais: é a brincadeira de roda. Nela, cada candidato levanta as bandeiras de seu partido, canta a musiquinha que quiser e faz um ou dois passinhos novos, mas apenas com o objetivo de divertir a platéia – e capturar-lhe o voto, claro. Mas que fique claro: é apenas brincadeira de roda. Se o candidato da mais bela musiquinha ou do mais belo passo de dança ganhar, isso não tem nada a ver com o que vai cantar ou dançar no governo. Aí, é coisa séria.

Heloísa Helena pode brincar de roda. Sua popularidade eleitoral pode ficar em 12%, pode cair ou pode subir. Mas, antes de manter-se na brincadeirinha eleitoral, seria um gesto de elegância que ao menos pedisse desculpas à antiga companheirada do PT por ter cobrado coerência quando o partido chegou ao governo.

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