sexta-feira, setembro 01, 2006

58) Lula: ausente do debate do jornal O Globo

Longe da 'praça pública de debates'
O Globo, 1/9/2006

Lula recusa convite do GLOBO para ser entrevistado por colunistas do
jornal

Um dia depois de comparecer à abertura do 6º Congresso Brasileiro de
Jornais, onde, em discurso lido, defendeu o papel da imprensa como "a
grande praça pública de debates", o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
mandou avisar que não participaria da série de entrevistas do GLOBO com
os candidatos à Presidência. O aviso de sua ausência foi feito apenas
quarta-feira à noite, embora estivesse convidado a participar desde o dia
1º de agosto. Segundo informações do Palácio do Planalto, Lula também não
comparecerá a entrevistas nos jornais "O Estado de S.Paulo" e "Folha de
S.Paulo".

Lula iria encerrar a série de entrevistas, ontem à tarde. Na
segunda-feira o entrevistado foi Cristovam Buarque (PDT); na terça,
Heloísa Helena (PSOL); e na quarta, Geraldo Alckmin (PSDB). Como os
demais candidatos, Lula seria entrevistado por colunistas do GLOBO,
entre eles os escritores Luis Fernando Verissimo, Paulo Coelho e João
Ubaldo Ribeiro, e os jornalistas Elio Gaspari, Tereza Cruvinel, Merval
Pereira, Jorge Bastos Moreno, Zuenir Ventura, Ancelmo Gois, Míriam
Leitão, Chico Caruso, Flávia Oliveira, Fernando Calazans, Artur Xexéo,
Cora Rónai, Artur Dapieve, Joaquim Ferreira dos Santos e Arnaldo Bloch.
O formato das entrevistas foi o mesmo usado na eleição de 2002, quando
Lula esteve no auditório do GLOBO, assim como seus adversários de então:
José Serra (PSDB), Anthony Garotinho (PSB) e Ciro Gomes (PPS).

Segundo Lula disse no Congresso de Jornais, antes de decidir faltar à
entrevista, "a liberdade de imprensa não pode ser um valor relativo". E
ele acrescentou: "Minha história política se deve muito à imprensa livre
e independente".

ANCELMO GOIS: "Em setembro de 2002, o senhor, como candidato, deu
entrevista a colunistas do GLOBO. Na época, fiz uma pergunta sobre a
escalada da violência. O senhor criticou FH, que, em oito anos, só tinha
se reunido duas vezes com os governadores para tratar da dívida dos
estados, e nunca para discutir temas como a violência. O senhor defendeu
ainda a idéia de o governo federal coordenar o combate nacional ao
narcotráfico e ao crime organizado. O senhor não acha que faltou ao
presidente ter ouvido o candidato Lula?"

LULA:

LUIS FERNANDO VERISSIMO: "O senhor acabou fazendo um governo mais
social-democrata do que se esperava. No seu segundo mandato pode se
esperar um Lula ainda mais de centro atrás do consenso ou mais de
esquerda?"

LULA:

ELIO GASPARI: "O senhor conversou com Paulo Okamotto a respeito da
dívida de R$29 mil que o PT lhe cobrou? Ele diz que não quis ficar
'enchendo o seu saco com uma coisa como essa'. Quando a dívida sumiu, o
senhor teve a curiosidade de descobrir como ela foi quitada?"

LULA:

MERVAL PEREIRA: 1. "O senhor, certa vez, no auge da crise do mensalão,
se disse traído. Em seguida, por diversas vezes, esteve reunido, pública
ou privadamente, com vários membros do PT envolvidos nas denúncias, e
sempre teve palavras de incentivo a eles. Chegou a dizer certa vez que
ninguém deveria abaixar a cabeça, e que os companheiros que erraram não
podem ser desprezados. Afinal, o senhor foi ou não traído? E por quem?"
2. "Quando, recentemente, o senhor disse, em reunião com intelectuais em
São Paulo, que política a gente faz com quem a gente tem, e não com quem
a gente quer, estava concordando com os artistas que, no Rio, admitiram
que política se faz metendo a mão na merda e, mais que isso, admitindo
que a real política o levou a fazer uso de esquemas como o mensalão para
organizar sua maioria no Congresso?" 3. "Por melhor que seja a situação
econômica internacional, por melhores que sejam os números da economia
brasileira hoje, o crescimento continua tão medíocre quanto no governo
anterior, que o senhor tanto critica. Proporcionalmente, seus resultados
são até piores, pelas condições da economia internacional, sem crises e
com o mundo crescendo a taxas muito maiores que as do Brasil. O que está
dando errado?"

LULA:

ZUENIR VENTURA: "Como candidato, o senhor promete investir em
infra-estrutura, cortas gastos e reduzir impostos. Por que o senhor não
fez isso como presidente?"

LULA:

TEREZA CRUVINEL: "Para formar uma base parlamentar, seu governo cooptou
partidos e políticos que nunca tiveram nada a ver com o PT e com suas
idéias. PL, PP e PTB, que vieram a ser conhecidos como partidos do
mensalão. Agora, disputando a reeleição, o senhor tem o apoio de
candidatos de mesmo perfil, como o senador Crivella no Rio, Newton
Cardoso em Minas, e de candidatos a deputado envolvidos nos escândalos
recentes. O senhor não acha que com isso está criando as condições para
que os mesmos erros e delitos políticos se repitam num eventual segundo
mandato?"

LULA:

JORGE BASTOS MORENO: "Presidente, se, como o senhor diz, está para
nascer alguém que possa dar lição de ética para o senhor, já apareceu
algum companheiro seu para dar a ficha técnica dos seus maiores aliados
políticos em Minas, Pará e Rio de Janeiro?"

LULA:

ARTUR XEXÉO: Na campanha de 2002, o senhor se orgulhava de ser o o único
candidato "que participou de todos os debates desde 1989". Estamos a um
mês das eleições de 2006 e, até agora, o senhor não participou de debate
algum. Há alguma chance de antes do dia 1o de outubro o senhor voltar a
se orgulhar daquele comportamento?

LULA:

CORA RÓNAI: "Presidente, o senhor se considera um bom pai?"

LULA:

CHICO CARUSO: "O senhor é a favor ou contra o sistema de cotas raciais
para acesso a universidades?"

LULA:

ARNALDO BLOCH: "O Lula que aparece hoje no horário gratuito é um ser
independente, sem filiação partidária, sem companheiros históricos, um
herói solitário. Expurgar o PT da sua trajetória política não é faltar
com a verdade? Não é ser injusto com aqueles que se mantiveram fiéis e
não pactuaram com a corrupção, a 'banda boa'? Não é como dar um soco na
militância que, ao longo das décadas, o ajudou a sobreviver
politicamente? Enfim, uma vez que virou as costas ao PT, gostaria de
saber com que partido o senhor se identifica hoje, já que, a exemplo da
última campanha, continua a trocar apoios com uma gama bastante variada
de tendências políticas".

LULA:

MÍRIAM LEITÃO: "Candidato, ainda que a grande dúvida sobre seu governo
seja no campo da corrupção, o senhor muda tanto de explicação para os
escândalos que ficarei em outro tema. O senhor me disse, numa entrevista
em 2002, a seguinte frase: 'Míriam, eu vou te dizer uma coisa porque eu
quero que você me cobre depois: eu vou fazer reforma agrária sem uma
ocupação e sem uma morte'. Atendendo ao pedido, aqui vai a cobrança:
foram 880 ocupações e 72 mortes pelos dados oficiais do seu governo que
vão apenas até março. Como o senhor explica ter errado tanto?"

LULA:

FERNANDO CALAZANS: "Presidente, quais foram a maior vitória e a maior
derrota de seu governo?"

LULA:

JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS: "Afinal, o que é ética para o senhor? Serve
para o PT?"

LULA:

FLÁVIA OLIVEIRA: "A carta tributária no Brasil vem aumentando
sistematicamente desde os anos 90. No governo Lula, atingiu seu mais
alto nível histórico. Segundo dados da própria Receita Federal, a carga
tributária em 2005 alcançou 37,37% do PIB. Para o empresariado nacional,
o peso dos impostos é o principal entrave ao crescimento e à
competitividade da economia, em razão dos custos que impõe à produção e
à concorrência desleal dos sonegadores. O senhor concorda com essa
afirmação? O que pretende fazer para diminuir a carga tributária e fazer
quem sonega acertar as contas com o Fisco?"

LULA:

JOÃO UBALDO RIBEIRO: "Por que o senhor se considera o melhor candidato a
presidente da República? Sua eleição foi vista como a expressão de um
desejo de mudanças importantes, estruturais mesmo, por parte do
eleitorado. O senhor acha que promoveu essas mudanças? Caso afirmativo,
quais são elas? O senhor fez inúmeras referências às 'elites' que o
repudiam e lhe fazem oposição. O senhor poderia especificar que elites
são essas?"

LULA:

ARTUR DAPIEVE: "Durante seu governo, o senhor pleiteou um papel de líder
não apenas regional, mas também mundial para o Brasil, articulando uma
cadeira no Conselho de Segurança da ONU e mandando tropas para o Haiti,
por exemplo. Apesar disso, assistiu passivamente a Hugo Chávez assumir
este papel, inclusive pela intromissão na política de outros países.
Qual será a política brasileira para a Venezuela caso o senhor conquiste
o segundo mandato?"

LULA:

PAULO COELHO: "Depois de uma grande expectativa internacional criada em
torno de sua eleição para presidente, que resultou inclusive em uma
consagradora acolhida em Davos que eu tive oportunidade de presenciar,
me parece que a visão estrangeira da política na América Latina está
sendo marcada por outros mandatários no continente. A política exterior
brasileira tem sido bastante coerente, mas as negociações em Doha
terminaram em um retumbante fracasso - que, diga-se de passagem, não é
culpa do Brasil. O país tem um 'plano B' para a Organização Mundial de
Comércio? É possível uma pressão conjunta com outros governantes da
América Latina, evitando cair na armadilha do discurso demagógico e
inútil de alguns deles?"

LULA:

Prejuízo ao debate

A DECISÃO do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de não participar da
série de entrevistas do GLOBO com os candidatos atende a uma conveniência
eleitoral.

É UM truque, uma esperteza de ocasião, em prejuízo do debate democrático
e contra a necessidade de os eleitores melhorarem a qualidade do seu
voto a partir do conhecimento das propostas e do pensamento de quem lhes
pede um crédito de confiança.

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